O Selo da Igreja Presbiteriana – Qual é ele?

NEC TAMEN CONSUMEBATUR:

A Sarça Ardente e a Identidade Presbiteriana.

1. ORIGEM
Se você nunca leu esta frase em latim — “Nec tamen consumebatur” — deve estar estranhando achando que este texto trata de algo complexo e restrito a um seleto grupo de intelectuais. Contudo, não é bem assim. Na verdade o objetivo deste texto é esclarecer alguns fatos e curiosidades sobre o símbolo e imagem visual do presbiterianismo em geral e, quem sabe, nos trazer uma reflexão sobre quem somos enquanto presbiterianos.

Nec Tamen Consumebatur significa algo como “No entanto, não se consumia”. Isso faz referência ao episódio de Ex 3:2 quando Moisés teve aquela visão sobrenatural da sarça ardente. A sarça é uma planta arbustiva desértica, logo, naturalmente seca, mas Moisés percebeu que a sarça ardia em chamas, contudo não se consumia (destruía). O que isso tem a ver com o presbiterianismo?

Ocorre que conforme deu-se o desenvolvimento do presbiterianismo dentro das igrejas reformadas essa frase em latim juntamente com a imagem da sarça ardente passou a ser utilizada como “lema” e “logomarca”, se é que podemos assim chamar.
Ao que tudo indica os primeiros registros do uso desse lema e logomarca nas igrejas presbiterianas remontam à Escócia ainda no século XVII, provavelmente no ano de 1691. Posteriormente a Igreja da Escócia (que é presbiteriana) oficializou esse símbolo e frase como sua identidade visual.
A sarça ardente tem sido o símbolo popular entre as igrejas reformadas ao redor do mundo. Os huguenotes franceses[1] em 1583 foram os primeiros a usá-la como símbolo, juntamente com o moto “flagror non consumor”. Mas foi na Escócia que o símbolo ganhou maior visibilidade, quando usado em 1691, depois das intensas disputas entre a monarquia e os aliancistas, juntamente com o moto latim “nec tamen consumebatur” – “queimava e não se consumia”.

Este dizer é uma referência ao episódio relatado no livro de Êxodo, no capítulo 3, quando Moisés encontrou uma sarça (arbusto, espinheiro) que ardia em chamas, mas que não era consumida pelo fogo. O Anjo do Senhor apareceu nas chamas de fogo, no meio da sarça. Em primeiro lugar, asseverou sobre a santidade do lugar em que Moisés estava, pois estava na presença de Deus. Em segundo lugar, revelou sua identidade: “Eu sou o Deus de teu pai, o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó” (v. 6); Moisés escondeu o rosto, porque temeu olhar para Deus. Em terceiro lugar, o Senhor revelou o propósito deste encontro inesperado, a libertação do seu povo, que estava sendo afligido por séculos no Egito e clamava a Deus por causa deste sofrimento.

É sugerido que os grupos reformados passaram a utilizar a sarça ardente como emblema, numa referência às grandes lutas que a Igreja passava a fim de resgatar os ensinamentos de Cristo e dos apóstolos. No séc. XVI, João Calvino entendeu o relato da sarça ardente como uma representação do povo de Deus, da Igreja que sofre em qualquer era ou lugar, mas sob a qual nem mesmo os portões do inferno podem prevalecer.

Em seu comentário aos livros de Moisés, Calvino escreveu: “A sarça é como as pessoas humildes e desprezadas; a opressão tirânica delas não é diferente do fogo que as teria consumido, se Deus não tivesse miraculosamente se interposto. Assim, pela presença de Deus, a sarça escapou segura do fogo; como é dito no Salmo 46, que embora as ondas de problemas batam contra a Igreja e ameacem a sua destruição, ‘não será abalada’, pois ‘Deus nela está’. Embora as pessoas cruelmente afligidas estejam apropriadamente representadas, aquelas que, apesar de cercadas pelas chamas e sentindo o seu ardor, permanecerem sem consumir-se, é porque foram guardadas pelo presente auxílio de Deus” (John Calvin, p. 62).

Entretanto, o fogo também é o sinal da presença de Deus, que é fogo consumidor (Hb 12.29). O milagre aponta para outro milagre ainda maior: Deus, por sua graça, está com o povo da sua aliança, de forma que eles não são consumidos.

Assim como na época da Reforma e em tantos outros momentos da História, no presente momento a Igreja enfrenta desafios complexos. De um lado, os militantes do Neo-ateísmo com suas críticas materialistas ácidas e os profetas do subjetivismo; do outro lado, as loucuras dos evangélicos, a teologia da prosperidade, o cristianismo emocional e pragmático sem Cristo e a Cruz; sem falar da teologia liberal, e das milhares de outras tendências filosóficas com cheiro de superioridade.

Tudo isso nos faria desesperar e desacreditar do futuro da Igreja. No entanto, quem sustenta a Igreja é Cristo, o verbo divino, pelo qual tudo veio a existir (Jo 1:10). Ele mesmo afirmou que as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja (Mt 16:18). Portanto, estamos seguros naquele que é o cabeça da Igreja. O símbolo da sarça continua sendo usado para nos lembrar que mesmo em meio às maiores aflições e dificuldades, a Igreja permanecerá de pé, pela graça de Deus, aguardando o retorno do seu Senhor.

“Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” – Mateus 16:18.

Veja Também